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Em agosto de 2025 foi criada a PORTARIA Nº 029/LIGABOM/2025 que trata sobre a Diretriz Nacional sobre Ocupações Destinadas a Garagens e Locais com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE)

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NO ARTIGO A SEGUIR PUBLICAMOS UMA ANÁLISE CRÍTICA SOBRE A DIRETRIZ

 

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ANÁLISE CRÍTICA DAS DIRETRIZES DA LIGABOM PARA VEÍCULOS ELÉTRICOS:

UM CHAMADO À RAZÃO TÉCNICA


As recentes diretrizes publicadas pela LIGABOM (Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares) sobre a segurança contra incêndio em garagens com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE) representam um importante marco na regulamentação de um tema emergente e complexo. Reconhecemos o extenso trabalho realizado pela instituição, que incluiu estudos técnicos, análise de estatísticas e visitas a países com maior experiência em mobilidade elétrica.

No entanto, alguns aspectos das diretrizes merecem uma reflexão mais aprofundada, especialmente à luz de estudos científicos recentes e dados internacionais que podem contribuir para o aprimoramento da norma. Este artigo tem como objetivo apresentar, de forma respeitosa e construtiva, evidências adicionais que podem enriquecer o debate e contribuir para uma regulamentação ainda mais eficaz e tecnicamente fundamentada.

Reflexão 1: A Associação do Risco Exclusivamente ao Ponto de Recarga (SAVE)

Um aspecto das diretrizes que merece reflexão é a condição de exigir sistemas de detecção e combate a incêndio unicamente quando há presença de um SAVE. Embora essa abordagem seja compreensível do ponto de vista regulatório, estudos internacionais recentes sugerem que o risco de incêndio em veículos elétricos pode não estar concentrado principalmente no processo de recarga.

Uma pesquisa da EV FireSafe, organização australiana financiada pelo Departamento de Defesa da Austrália para pesquisar incêndios em baterias de VEs e respostas a emergências, revela que apenas cerca de 15% dos incêndios em baterias de veículos elétricos ocorrem enquanto o veículo está conectado a um carregador. A maioria dos incidentes está relacionada a danos prévios na bateria, como colisões, submersão em água ou defeitos de fabricação, que podem levar à fuga térmica (thermal runaway) horas ou dias depois, independentemente de o veículo estar ou não recarregando.

Além disso, um estudo da AutoInsuranceEZ, que analisou dados do National Transportation Safety Board (NTSB) e do Bureau of Transportation Statistics (BTS) dos EUA, concluiu que os veículos elétricos são, na verdade, menos propensos a incêndios do que os veículos a combustão e híbridos. O estudo aponta que, para cada 100.000 veículos vendidos, ocorreram 1.529,9 incêndios em veículos a gasolina, 3.474,5 em híbridos e apenas 25,1 em veículos elétricos.

Esses dados demonstram que o risco de incêndio em uma garagem não está intrinsecamente ligado à presença de um ponto de recarga, mas sim à presença de veículos, sejam eles elétricos, a combustão ou híbridos. Os carros modernos, independentemente da motorização, possuem uma grande quantidade de materiais plásticos e inflamáveis, o que representa um risco de incêndio significativo por si só.

 

Um exemplo emblemático do perigo dos veículos a combustão foi o incêndio no Aeroporto de Luton, em Londres, ocorrido em outubro de 2023. Um veículo a diesel sofreu uma falha elétrica ou de componente no compartimento do motor, iniciando um incêndio que se espalhou rapidamente e destruiu mais de 1.400 veículos estacionados, causando o colapso parcial da estrutura do estacionamento. Este caso demonstra que veículos a combustão podem ser tão ou mais perigosos que os elétricos em ambientes de estacionamento.

Além disso, as diretrizes da LIGABOM apresentam uma lacuna significativa ao não abordar outros tipos de veículos elétricos que também utilizam baterias de íons de lítio e podem representar riscos similares, como motocicletas elétricas, scooters, bicicletas elétricas e patinetes elétricos. Esses veículos ficaram completamente fora do escopo das diretrizes, criando uma inconsistência regulatória preocupante.
Focar a prevenção apenas nos pontos de recarga de automóveis elétricos é ignorar o risco real e criar uma falsa sensação de segurança.

Reflexão 2: A Exigência de Carregadores Tipo 3 e 4 e as Evidências sobre Carga Rápida

Outro aspecto que merece consideração é a admissão exclusiva de carregadores dos tipos 3 e 4, que correspondem a potências mais elevadas. Embora essa escolha possa ter suas justificativas técnicas, um crescente corpo de evidências científicas sugere que a carga lenta pode oferecer vantagens significativas em termos de segurança e longevidade das baterias de íons de lítio.

Um compilado de sete artigos acadêmicos sobre o tema, incluindo estudos publicados em revistas de alto impacto como eTransportation e Journal of Energy Storage, revela um consenso científico sobre os danos causados pela carga rápida. O princípio físico do Efeito Joule (Q = I²R), onde o calor gerado é proporcional ao quadrado da corrente, explica por que a carga rápida, que utiliza correntes muito mais altas, gera um aquecimento exponencialmente maior na bateria. Esse calor excessivo é o principal catalisador para a degradação da bateria e, em casos extremos, para a fuga térmica.

O estudo da Geotab, que analisou dados de mais de 6.000 veículos elétricos, confirmou que o uso frequente de carregadores rápidos (DCFC) impacta significativamente a taxa de degradação da bateria, especialmente em climas quentes. Outros estudos, como o de Tomaszewska et al. (2019), apontam que a vida útil de uma bateria pode dobrar quando a temperatura de operação é reduzida de 40°C para 30°C, uma diferença facilmente ultrapassada em processos de carga rápida.


Ao contrário do que as diretrizes da LIGABOM sugerem, a solução mais segura e inteligente para ambientes residenciais, como condomínios, é a carga lenta, utilizando carregadores de baixa potência (como os de 3,5 kW). A carga lenta oferece múltiplos benefícios:

 

  • Menor geração de calor: Reduz o estresse térmico na bateria, preservando sua vida útil e diminuindo o risco de fuga térmica.
  • Menor custo de infraestrutura: Carregadores de baixa potência exigem uma infraestrutura elétrica mais simples e barata, facilitando a instalação em condomínios.
  • Maior segurança: O menor estresse na bateria e na rede elétrica se traduz em um ambiente mais seguro para todos.
  • Adequação ao perfil de uso: Em condomínios, os veículos permanecem estacionados por longos períodos, tornando a carga lenta perfeitamente viável para o uso diário.
     

Considerando essas evidências científicas, seria valioso avaliar se a inclusão de carregadores de baixa potência (como os de 3,5 kW) nas diretrizes poderia oferecer uma alternativa mais segura e economicamente viável para ambientes residenciais, complementando as opções já previstas.

Considerações sobre as Consequências Práticas

É importante considerar as possíveis consequências práticas das diretrizes em sua forma atual. A associação do risco exclusivamente à presença do SAVE, combinada com a exigência de medidas de segurança que podem ser onerosas, pode levar alguns condomínios a optarem por proibir a instalação de pontos de recarga para veículos elétricos como forma de evitar custos adicionais.
Essa proibição, embora pareça uma solução simples para os condomínios, gera um efeito cascata de problemas:

1.Desestímulo à Mobilidade Elétrica:
A impossibilidade de recarregar em casa torna a posse de um veículo elétrico inviável para a maioria das pessoas que vivem em apartamentos, freando a transição para uma mobilidade mais sustentável.

2.Aumento do Risco por Carga Rápida Repetitiva:
Ao forçar os proprietários de veículos elétricos a recarregarem exclusivamente em eletropostos públicos, as diretrizes os obrigam a utilizar predominantemente carga rápida. Como demonstrado pelos estudos acadêmicos, o uso repetitivo de carga rápida acelera a degradação da bateria e pode ser uma das causas de fuga térmica com origem "desconhecida". Paradoxalmente, esses veículos submetidos a maior estresse térmico continuarão "dormindo" nas garagens dos condomínios, potencialmente com maior risco de incidentes.

 

3.Falsa Sensação de Segurança:
As garagens sem SAVE, mas com veículos a combustão, híbridos e até mesmo elétricos (que podem ter sido carregados em outro lugar), continuarão a apresentar riscos de incêndio, mas sem a proteção adequada, uma vez que as diretrizes não as contemplam. Isso cria uma falsa sensação de segurança e deixa uma lacuna perigosa na prevenção.
Essa situação sugere que as diretrizes, embora bem-intencionadas, podem inadvertidamente criar obstáculos à adoção de tecnologias mais limpas e, em alguns casos, não abordar completamente os riscos que pretende mitigar.

Considerações Finais e Sugestões Construtivas


As diretrizes da LIGABOM representam um importante passo na regulamentação da segurança contra incêndio em ambientes com veículos elétricos. Reconhecemos o trabalho técnico realizado e a complexidade do tema. No entanto, as evidências científicas apresentadas neste artigo sugerem oportunidades de aprimoramento que poderiam tornar a regulamentação ainda mais eficaz e abrangente.
Sugerimos que o Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares considere uma revisão colaborativa do documento, incorporando as evidências científicas recentes e promovendo um diálogo mais amplo com especialistas do setor.

 

Recomendamos que as novas diretrizes sejam baseadas nos seguintes princípios:

1.Análise de Risco Abrangente:
 avaliação de risco de incêndio em garagens deve considerar a carga de incêndio total, incluindo todos os tipos de veículos, e não apenas a presença de pontos de recarga para veículos elétricos.

2.Incentivo à Carga Lenta:
As normas devem incentivar e facilitar a instalação de carregadores de baixa potência (como os de 3,5 kW) em condomínios, por serem mais seguros, mais baratos e mais adequados ao perfil de uso residencial.

3.Educação e Prevenção:
Em vez de criar barreiras, as diretrizes deveriam focar em educar síndicos, moradores e instaladores sobre as boas práticas de instalação e uso de sistemas de recarga, bem como sobre os riscos reais e as formas de mitigá-los.

4.Diálogo com a Sociedade:
É crucial que a elaboração de normas tão impactantes leve em consideração a visão de especialistas do setor automotivo, da área de energia, da construção civil e da sociedade civil, para garantir que as soluções propostas sejam técnicas, viáveis e eficazes.

Um futuro mais seguro e sustentável pode ser construído através de normas que incentivem a adoção de novas tecnologias de forma segura e inclusiva. A LIGABOM tem a oportunidade de liderar esse processo, e esperamos que este artigo contribua para um debate construtivo e para o contínuo aprimoramento das diretrizes de segurança contra incêndio em garagens com veículos elétricos.

Autoria: Eng. Helio Ferraz (CREA-SP 0682555728)